Nascido no Porto, sempre se assumiu como filho de Barca d'Alba. Senhor de sua vontade defende que, como toda a gente tem direito de escolher o lugar onde nasce - porque nascer não é uma fatalidade e sim uma escolha pré-consciente - decidiu-se por Barca d'Alba, a última terra portuguesa antes da fronteira; só que os "calculistas" se enganaram e foi nascer ao Porto.
George Agostinho Baptista da Silva, nascido a 13 de Fevereiro de 1906 na capital nortenha, é criado e educado em Barca d'Alba, o seu porto seguro onde, em liberdade, aprendeu a amar as escarpas, o rio Águeda e o Douro, a observar a dança das estrelas, a valorizar o campo e a vida ao ar livre. Por lá teve as primeiras grandes aventuras e é lá que reconhece ter ganho a formação básica como pessoa, no contacto que considera fundamental com a terra e as gentes simples, que sempre valorizará pela autenticidade, sabedoria alicerçada na experiência, grandeza de sentimentos. Foi em Barca d'Alba que ganhou, com o pai, o gosto pela matemática e pela litigância; com a mãe aprendeu a ler, herdando dela a inclinação artística, o amor pela leitura e pela poesia. Foi igualmente em Barca d'Alba que fez as primeiras incursões no país vizinho, ganhando então, quem sabe, consciência de quão fundamental é ser-se livre, bem como o gosto pelo contacto e a curiosidade em relação a outras culturas, outras gentes.
Regressando a família ao Porto, a sua formação continua. Combativo, persistente, decidido e empreendedor, de poucas coisas desitiu na vida. Das suas memórias tripeiras ressalta a falhada frequência da Escola Industrial: matérias desinteressantes, professores chatos... e a brincadeira lá fora, à espera do menino de onze anos; os passeios no Parque que, ao pé de casa, do lado do rio desce até à linha do camonho de ferro; e os rabelos que ainda passavam; as batalhas com soldadinhos de chumbo entre os quais identificava Pétain, Foch, Pershing... O êxito surge no Liceu e na Faculdade de Letras, que enaltece como instituições modelo. O privilégio de ter sido formado em escolas onde a curiosidade era socraticamente estimulada e satisfeita levou-o a alicerçar uma teoria muito própria de educação e de ensino, que pôs em prática nas inúmeras experiências pedagógicas em que se envolveu, nas escolas experimentais que criou, inclusive na educação que deu aos seus oito filhos.
Líder nato, funda a Associação Académica da Faculdade de Letras da Universidade dom Porto; em 1926 já dirige o "Porto Académico", órgão da Associação de Estudantes, através do qual tenta a união das academias do país. Acredita e defende a união dos estudantes - e com estes, a dos Portugueses - em prol da regeneração nacional, "para que Portugal saia, finalmente, da desorientação e do abatimento dos últimos tempos", afirma em 24-5-1927, em entrevista dada a Bento Caldas para o jornal "A Voz". E pugna, já nesta altura,como o fará durante toda a vida, em prol da coesão e da liberdade, em detrimento do investimento gratuíto nas diferenças que separam os homens.
Na escola da vida
No Porto recebeu a alforria do reconhecimento académico com apenas 23 anos, quando concluiu o doutoramento com 20 valores. "Em raiva" ousa contrariar as teorias autoritárias, colectivistas e niilistas defendidas pelo pensador alemão Oswald Spengler, que já estavam em perigosa expansão na Europa. Tal como depois, na escola da vida, se demarca de tantos outros da sua época. Mais do que se notabilizar pelos trabalhos desenvolvidos como latinista e filólogo, professor, educador, poeta ou biógrafo, ficcionista ou entomólogo, matemático, geógrafo ou geómetra, fisíco ou estudioso de medicina, filósofo ou metafísico, relojoeiro, ceramista ou pintor, Agostinho ficará na memória dos portugueses do século XX como exemplo inatacável de alguém que não tergiversa nem se demite do que assume como foro do imperativo ético.
Os valores apreendidos nessa sua primeira época de formação estarão presentes durante toda a vida: a intransigente defesa da "plena liberdade, liberdade de viver, liberdade de pensar, liberdade de criar ou, numa palavra só, liberdade de ser". Enunciá-los-à à exaustão em conversas privadas, em palestras e conferências, em programas de rádio e televisão. Fará deles uma arma, sem qualquer tipo de receios bacocos, sem posições dúbias; acima de tudo, coerente que é, praticá-los-à.
Contrariamente à maioria, Agostinho não se lamenta dos "revezes do destino" ou, linearmente, das partidas que a vida prega: de tudo o que lhe acontece tira uma lição, perscutando sinais claros de que qualquer outra coisa de positivo advirá do que, à primeira vista, parece adverso.
Depois de doutorado - e porque não pôde leccionar na Faculdade de Letras do Porto como se assumiria ao finalizar tão brilhante desempenho, devido ao encerramento da mesma - assume a docência no ensino secundário e é bolseiro da Junta de Educação Nacional em Paris, onde conhece ou retoma contacto com outros exilados portugueses com quem manterá laços durante toda a vida. Para Agostinho, a Amizade e o Amor são valores perenes. Regressando a Portugal, envolve-se nas primeiras grandes polémicas conhecidas com Alfredo Pimenta, com o professor de Filosofia Matos Romão, com o então Ministro da Educação Cordeiro de Campos, com o professor da Faculdade de Letras de Lisboa Padre Raul Machado, ou com a Academia de Ciências, personificada na figura de Júlio Dantas. A todos desafia, sem medo, o que em breve lhe trará dissabores com repercussões gravosas.
Quando está seguro das suas convicções, qual toiro enraivecido, investe contra quem lhe aparece no caminho: que o diga o Prof. Marcelo Caetano, que com ele se confronta, em Salvador da Baía, pelos idos de 1959, no "IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros". O confronto verbal é tão duro que ganha foros de escândalo, quando Agostinho, acaloradamente defende a independência das colónias e propõe a criação de uma Confederação de Povos de Língua Portuguesa.
Agostinho luta para se não meter em guerras. Mas, quando é desafiado e tem de terçar armas, não descansa até ao combate final. Então, é irascível, violento, feroz na crítica e na argumentação. Apenas uma coisa o pára: a tomada de consciência de que o seu opositor está na razão. Nessa altura, com elevação o reconhece; sem qualquer tipo de evasivas. No desencontro de ideias é atento e respeitoso das posições contraditórias, mantendo interlocução com vista a conclusões conciliatórias das diferentes perspectivas, o que o faz ganhar amizades eternas. Tal aconteceu com Carlos Kruz Abecassis, director do jornal "Ala", com quem se desentendera por causa da polémica e da perseguição em que se viu envolvido aquando da edição do escrito "A Doutrina Cristã", que o levou à prisão do Aljube.
É irradiado do ensino por se recusar terminantemente a assinar a declaração de compromisso em como, como funcionário público que era, não pertencia nem viria a pertencer a qualquer sociedade secreta. | | Protesta, peremptoriamente, "contra a medida violenta e vexatória que o Governo... julgou por bem tomar contra os funcionários da Nação". Assim reza o repúdio manifestado, manuscrito por Agostinho, existente no seu Processo da PVDE-PIDE/DGS, contra a que passará a ser conhecida como "Lei Cabral" e apenas recebera, com manifestações idênticas, a oposição pública de Fernando Pessoa e de Norton de Matos.
Mas não cruza os braços: escreve e edita, a expensas próprias, centenas de "Biografias" e "Cadernos" de divulgação cultural para adultos e jovens, funda escolas experimentais segundo novos métodos pedagógicos, colabora em jornais, organiza sessões culturais na rádio para os jovens, cria uma rede revolucionária de bibliotecas, faz palestras, conferências, organiza exposições, dá cursos e aulas particulares.
Criticado e vilipendiado por adversários da Academia, pela imprensa comprometida com a estrutura político-religiosa, perseguido pela polícia política devido à incessante obra de divulgação cultural que empreende em todo o país depois de publicar o folheto "A Doutrina Cristã", é acusado de estar a empreender uma campanha de "Descristianização... a pretexto de cultura" (Jornal "A Voz" de 17/2/1943).
Fiel aos princípios
Ao ser impedido de trabalhar, ao ver os seus direitos de cidadão livre cerceados, impedido que é de levar a cabo, qual Comenius português, uma obra de educação que desejaria o mais ampla possível, Agostinho reage com violência e não verga nem teme a força dos opositores. Ousada e convictamente, declara que se reserva "o direito de, em qualquer tempo, pelas formas legais, exigir a reparação da violência" a que é submetido. Ganha, assim, notariedade, e recebe o epíteto de "intransigente adversário do Estado Novo, com pronunciadas tendências extremistas, embora tido como bom professor e honesto" (PIDE, folio 398, p.20).
O que parecia um revês do destino é encarado por Agostinho como "Deus a escrever direito por linhas tortas". Ao ser obrigado ao auto-auxílio na América do Sul, vai ali desenvolver o projecto que fora impedido de realizar em Portugal - divulgar a língua, os pricípioa e valores da cultura lusa - difundindo a crença de que é possível construir uma nova era em que, como defende em "A Doutrina Cristã", pelo esforço fraterno e de todos, se há-de chegar ao tempo em que a igualdade social seja uma realidade. O homem terá desenvolvido, ao máximo, o seu espírito criativo e criador. Existirão sistemas sociais cada vez mais perfeitos, à medida que a cultura se alargue e poder-se-à viver, finalmente, sem qualquer tipo de exploração, numa era de comunhão e partilha, que levará à organização humana mais perfeita.
Durante os 25 anos em que permaneceu por terras sul-americanas foi fiel ao princípio traçado nos verdes anos de servir a cultura e o seu semelhante. De forma ousada e inovadora, como acessor de política cultural externa do Presidente Jânio Quadros, em 1961, influenciou as relações do Brasil com a África. Fundou (ou ajudou a fundar) universidades e centros de estudos e de investigação ou de divulgação da língua e da cultura portuguesas, preconizando a ideia de se proceder a uma renovação mundial assente em princípios e valores (de amor, de exigência, de obediência e de serviço), que seriam as bases de uma comunidade, a comunidade luso-afro-brasileira. Desta, já que irmanada pela língua, depois de operada a fusão de culturas e religiões existentes, depois de restaurada nos homens a capacidade de criar e de sonhar livremente, acreditava Agostinho que haveria um dia de emergir uma civilização finalmente virada para os valores do espírito, conducente a uma era de plenitude final: a convergência entre o humano e o divino que existe em cada ser.
A bola de cristal das ideias
Homem de liberdade(s), Agostinho refere ter-se dado bem com a profissão que escolheu, a de professor. Nunca a encarou como algo de penoso, dado que para si o trabalho nunca lhe foi penoso: eterno estudante, tudo o que fez fê-lo porque quis e a tal se entregou, no constante acto de generosa partilha. Tendo conseguido cumprir integralmente uma das suas vocações - a de ser estudante, eternamente apaixonado pelo saber e pela descoberta - outros doi rumos emergiram como vocação que gostaria de ter seguico: o de marinheiro - que nunca passou de sonho - e o de monge emerita. Porque o encantava a vastidão do mar, a ordem e a disciplina exigidas no navio, a permanente possibilidade de estar entregue a si próprio, em contacto directo com Deus (o Uno) e com os elementos; e porque defende e pratica o ecumenismo - tomou para si, entre outros, como padrieira, Santa Águeda, assumindo um outro patrono em Omulú, orixá de origem nigeriana do terreiro de Dona Olga de Alaketu, sua Mãe de Santo em Salvador da Baía.
Agostinho manifesta como poucoa a capacidade de antever o futuro, que lê na bola de cristal das ideias próprias e que lhe confere, em alguns círculos, o epíteto frequentemente proferido em tom depreciativo e pouco lisonjeiro de "utópico". Mas tal em nada o perturba. O facto é que, à distância de décadas, consegue descortinar e enunciar ideias e ideais que, sendo hoje dados adquiridos, foram então encarados com escândalo: o enunciar de alguns princípios que virão a integrar, trinta anos mais tarde, a Declaração Universal dos Direitos do Homem - "a dignificação da pessoa e o efectivo respeito pela sua liberdade de acesso à informação, conducente à construção, à promoção e ao aperfeiçoamento da pessoa integral". Igualmente, a sua tão contestada teoria da utilização e fruição do tempo livre em prol da criação, ou a outra, da previsão da chegada de uma era em que as crianças nasçam já reformadas por falta de ocupações. Politicamente, profetizou a entrada dos países europeus para uma CE a construir, provocou risos ao profetizar a aproximação da União Soviética aos Estados Unidos da América e ao Ocidente Europeu, sublinhando que haveria de chegar a época em que testemunharíamos a supremacia crescente do bloco chinês ou a criação do que actualmente designamos por CPLP.
Frugal e franciscanamente, Agostinho situou-se durante toda a vida "do outro lado" da "corrente" quando disorreu sobre os perigos da sociedade de consumo, padronizada e desumana, em que o "ter" bens meramente utilários se sobrepõe à essência do "ser" humano, solidário, com capacidade de se espantar. Igualmente, ao privilegiar o tempo livre dedicado à criação contra a escravidão do tempo dedicado ao trabalho que se desenvolve por obrigação ou necessidade, sem prazer ou entrega, ou quando chama a atenção para o quão imperativo é adoptarem-se políticas de paz, por contra ponto às que enfatizam a violência.
Para a utilização de tal obra, fica-no na memória um único lamento que, quem sabe se parafraseado de Camões, ouvimos a Agostinho: "Toda a vida é curta para a vida". = Helena Maria Briosa e Mota. |